"Aquilo que é feito com tempo, o tempo respeita" / by Ruben Mália

Maio está a chegar e com ele as festas e tradições populares de verão retomam o seu ciclo anual. Este (espero) será o ultimo ano do projecto “ The Sacred and the Profane”.

Quando iniciei este projecto em 2010 nunca imaginei que me levasse até onde levou e acima de tudo, tudo aquilo que me proporcionou em termos de crescimento, como Homem e como Fotografo.

Grijó de Parada ©Ruben Mália2015

Grijó de Parada ©Ruben Mália2015

Uma vantagem de um projecto de longa duração é dar a capacidade de podermos-nos libertar das pressões que são habituais quando se trabalha para uma revista ou um jornal. Dá a liberdade de experimentar diversas formas de aproximar um tema, e de uma maior empatia e interacção com as pessoas que nos convidam para as suas vidas.
Com este projecto pude testemunhar por diversas vezes a alma e o carinho com que o Português sabe receber nas nossas aldeias e vilas dispersas por todo o norte deste país.

Recordo quando estive em Vale de Porco após o dia de natal, o jipe coberto de gelo que mal pegava pela manha, e a senhora que nos viu perdidos na aldeia ao frio e nos convidou para o abrigo da sua casa e da lareira que ja ardia desde muito cedo. Preparou-nos uma mesa farta com tudo que tinha de melhor, contou-nos historias da sua aldeia, das tradições que ja não se realizam e falou-nos das dificuldades que os mais novos encontram para se fazerem a vida.

A capacidade de bem receber torna-se ainda maior quando temos a oportunidade de regressar ano após ano para participar das festas. As pessoas vão nos conhecendo, o ambiente torna-se mais familiar, formam-se laços de amizade, e para quem esta a fotografar, isso ajuda imenso a que as pessoas se tornem menos tensas quando lhe apontamos uma câmara.
No final do dia somos mais um elemento da família, mais um amigo, mais um peregrino.

 

Em 2013, o New York Times publicou uma entrevista (Link) pela jornalista e cineasta  Sheila Turner-Seed a  Henri Cartier-Bresson em 1971. Nessa entrevista Bresson, citando Rodin, dizia: 

“I like to live in a place. I don’t like to go for short time. Rodin said, “What is made with time, time respects,” or something like this.”
— Henri Cartier-Bresson

Essa citação tem viajado comigo cada vez que parto para fotografar para este projecto. Hoje em dia, e em especial com a entrada da fotografia digital, queremos tudo feito na hora, os projectos são feitos em dias ou semanas, queremos fotografar e ver logo as nossas imagens para poder partilhar o mais rápido possível para consumo. Faz lembrar fast food.

Garry Winogrand deixava os seus rolos em sacos durante anos até decidir revelar-los e finalmente olhar as suas imagens. Tal distanciamento é importante, especialmente para que não confundamos o sentimento que associamos ao momento em que a imagem foi tirada e possamos ser objectivos quando olhamos para uma foto.

“Sometimes photographers mistake emotion for what makes a great street photograph.”
— Garry Winogrand

Fica a sugestão e o desafio. Experimentem passar um ano sem publicar nas redes sociais, deixem as vossas imagens assentar, amadurecer, como um bom vinho e vão ver que a vossa percepção vai mudar para melhor.